Conheci um cardiologista em São Paulo que opera com uma precisão que seus colegas descrevem como quase artística. Quinze anos de especialidade. Duas pós-graduações. Uma lista de casos que mudariam qualquer livro de medicina. Quando perguntei quantos seguidores ele tinha no Instagram, ele olhou para mim com a expressão de quem acabou de ser questionado sobre algo levemente constrangedor.
“Uns trezentos”, disse ele. “A maioria família.”
A cinquenta quadras dali, um jovem médico com três anos de formado — tecnicamente competente, sem dúvida, mas ainda construindo seu repertório clínico — acumulava quarenta e dois mil seguidores. Postava todo dia. Falava sobre saúde com uma linguagem acessível. Aparecia. E o mercado, que nunca foi um árbitro perfeito de mérito, o escolhia com uma frequência que o cardiologista experiente não conseguia mais ignorar.
Essa cena — que se repete em consultórios, escritórios de advocacia, estúdios de arquitetura e salas de consultoria por todo o país — não é uma anedota curiosa. É o sintoma de uma transformação profunda no modo como a competência é percebida, valorizada e remunerada no Brasil contemporâneo.
Durante séculos, o profissional liberal construiu sua reputação da mesma forma: tempo, resultado e boca a boca. O médico que atendia bem era indicado. O advogado que ganhava causas importantes acumulava prestígio. O arquiteto cujos projetos envelheciam bem tinha a agenda cheia. Era um sistema lento, mas relativamente justo na sua lógica — quem entregava mais, colhia mais.
Esse sistema não morreu. Mas ganhou um concorrente implacável.
A internet, e particularmente as redes sociais a partir dos anos 2010, criou um segundo mercado de reputação que opera em paralelo ao da competência real — e que, em muitos setores, já supera o primeiro em velocidade e alcance. Nesse novo mercado, a moeda não é o resultado entregue, mas a percepção construída. Não é o que você sabe, mas o que as pessoas sabem sobre o que você sabe.
Para o empreendedor e o profissional liberal, isso representa um desafio existencial que vai muito além de “aprender a usar o Instagram”.
Seria tentador — e equivocado — reduzir esse desafio a uma questão de literacia digital. Como se o cardiologista de que falei no início precisasse apenas de um curso de redes sociais para resolver seu problema de visibilidade. Não é assim.
O problema é estrutural. É de tempo, de energia, de identidade e, em última análise, de como a sociedade distribui o ônus da comunicação.
Um médico passa, em média, doze horas por dia exercendo sua especialidade. Quando chega em casa, o que tem sobrado para construir presença digital? A resposta honesta é: quase nada. E não porque ele seja preguiçoso ou avesso à tecnologia. Mas porque nenhum sistema — nem a faculdade, nem os conselhos profissionais, nem os modelos de gestão de carreira que aprendeu — foi desenhado para incluir “construir audiência digital” como parte integral da atividade profissional.
Isso cria um paradoxo cruel: quanto mais competente é o profissional, quanto mais dedicado ao exercício da sua especialidade, menos tempo ele tem para fazer aquilo que o tornaria mais visível e, portanto, mais escolhido. A excelência técnica e a visibilidade digital disputam o mesmo recurso escasso: o tempo humano.
Há um argumento otimista — e parcialmente verdadeiro — que circula nas discussões sobre empreendedorismo digital: a internet democratizou o acesso à audiência. Antes, construir uma marca pessoal exigia dinheiro para publicidade, relações com a mídia ou uma posição institucional privilegiada. Hoje, qualquer pessoa com um smartphone pode, em teoria, alcançar milhões.
Esse argumento, porém, ignora algumas variáveis críticas.
A primeira é que democracia de acesso não é o mesmo que igualdade de condições. Sim, qualquer pessoa pode abrir uma conta no Instagram. Mas manter uma presença consistente, com conteúdo que educa, posiciona e gera confiança — todos os dias, por anos — exige uma combinação de tempo, habilidade comunicativa e estratégia que não está distribuída uniformemente. E que, convenhamos, raramente é o perfil do especialista que dedicou a vida a dominar outra disciplina.
A segunda variável é o que os economistas chamam de “custo de oportunidade”. Para o empreendedor que cobra R$ 800 por hora de consultoria, dedicar quatro horas semanais a criar conteúdo para redes sociais representa um custo econômico real — mesmo que não apareça em nenhum balanço. É tempo que não foi gasto atendendo clientes, estudando, ou simplesmente descansando para sustentar a performance de alto nível que sua especialidade exige.
A terceira — e talvez a mais ignorada — é a questão da autenticidade de escala. A internet premia a consistência. Algoritmos não têm paciência para quem aparece uma vez por mês. Mas consistência, para um ser humano com agenda cheia e responsabilidades reais, é um padrão impossível de manter indefinidamente. O resultado são perfis que surgem com energia, postam intensamente por três semanas, e desaparecem por dois meses — exatamente o padrão que o algoritmo pune com invisibilidade.
Não é especulação que a visibilidade digital impacta resultados de negócio. Os dados são robustos o suficiente para tirar qualquer profissional da zona de conforto.
Um estudo da Edelman Trust Barometer, referência global em pesquisa de confiança, aponta que 46% dos consumidores pagam mais por marcas nas quais confiam do que por alternativas equivalentes. Em mercados onde a diferenciação técnica é difícil de avaliar pelo leigo — medicina, direito, consultoria — esse número tende a ser ainda maior. O cliente não tem como saber quem opera melhor. Mas sabe quem ele conhece. E conhecimento, no mundo atual, se constrói antes da consulta — na pesquisa que o paciente faz no Google na semana anterior, no perfil que o cliente potencial visita antes de pegar o telefone.
A Kantar BrandZ, que monitora o valor de marcas em escala global, encontrou que marcas com identidade consistente crescem 3,5 vezes mais rápido do que a média do seu mercado. Três vezes e meia. Não é uma vantagem marginal. É a diferença entre escalar um negócio e mantê-lo estagnado.
Mas aqui está o dado mais perturbador para quem ainda resiste à urgência do tema: uma pesquisa da Marq (anteriormente Lucidpress) mostra que empresas com presença de marca consistente em todos os seus pontos de contato geram 23% mais receita do que as que não têm. Para um consultório com faturamento de R$ 100 mil mensais, isso representa R$ 23 mil adicionais — todo mês — que estão sendo deixados na mesa.
Não porque o profissional é ruim. Porque é invisível.
Existe uma crença silenciosa que paralisa uma geração de empreendedores talentosos: a ideia de que o momento de investir em presença digital chegará naturalmente — quando a agenda tiver mais espaço, quando o negócio estiver mais estável, quando houver mais dinheiro disponível, quando o cenário econômico melhorar.
Essa crença é uma armadilha sofisticada.
A agenda não abrirá espaço espontaneamente. Profissionais competentes têm agendas cheias — é uma consequência direta de ser bom no que fazem. O negócio não se estabilizará antes de a presença digital estar construída; frequentemente, é a presença digital que estabiliza o negócio, ao criar um fluxo constante de clientes qualificados que chegam por identificação, não por desespero. E o cenário econômico — se a história serve de guia — nunca será perfeito.
Há também a armadilha da perfeição. O profissional que não posta porque “ainda não tem um conteúdo à altura do que quer comunicar”. Que não lança o canal porque “o equipamento ainda não está bom o suficiente”. Que não aparece porque “não se sente pronto para ser uma figura pública”. Essa autocrítica, que em outros contextos é uma virtude — é ela que faz o cirurgião revisar cada detalhe antes de uma operação —, no universo digital torna-se um obstáculo paralisante.
O algoritmo não premia o perfeito. Premia o presente.
Há uma dimensão desse problema que raramente é discutida com a seriedade que merece: o que acontece com uma sociedade quando seus profissionais mais qualificados são sistematicamente invisíveis, enquanto os mais habilidosos em comunicação — independentemente de sua profundidade técnica — dominam a percepção pública?
Não é uma questão trivial.
Quando o paciente escolhe um médico baseado na popularidade do Instagram e não na qualidade técnica, estamos diante de uma falha de mercado com consequências reais para a saúde pública. Quando o cliente escolhe um advogado porque ele posta vídeos dinâmicos no YouTube, podemos estar transferindo recursos de quem tem mais competência para quem tem mais visibilidade. Quando o jovem empreendedor perde contratos para um concorrente menos preparado porque este domina as ferramentas digitais, estamos penalizando o mérito em favor da forma.
Isso não é um argumento contra a comunicação digital. É um argumento pela urgência de que os melhores também se tornem visíveis.
Uma sociedade que desperdiça o talento de seus profissionais mais competentes — porque eles não tiveram tempo, suporte ou estratégia para construir presença digital — paga um preço que vai além do financeiro.
A resposta honesta é que não existe solução fácil. Existe, porém, uma mudança de perspectiva que pode ser o primeiro passo.
Presença digital não é uma atividade de marketing. É uma infraestrutura de confiança. Da mesma forma que nenhum médico pensa duas vezes antes de investir num bom equipamento de diagnóstico, ou nenhum advogado hesita em pagar por uma boa base de jurisprudência, a construção de presença digital precisa ser tratada como investimento em infraestrutura — não como custo de comunicação.
A segunda mudança é reconhecer que fazer isso sozinho, para a maioria dos profissionais de alto desempenho, é uma equação que não fecha. O tempo que exige, o aprendizado constante de plataformas que mudam seus algoritmos com uma velocidade que desafia qualquer rotina, e a energia que consome — tudo isso compete diretamente com o exercício da especialidade que é, afinal, a fonte real de valor desse profissional.
Delegar a construção da presença digital — com critério, com quem entenda profundamente de comunicação e de identidade — não é capitulação. É inteligência estratégica.
O cardiologista que mencionei no início desta coluna não precisa se tornar um influenciador. Não precisa aprender os segredos do algoritmo do Instagram. Não precisa gravar vídeos nas madrugadas de segunda-feira.
Ele precisa, isso sim, parar de aceitar que excelência técnica seja condição suficiente para ser escolhido num mercado que, justo ou não, cada vez mais decide pela percepção antes de chegar à competência.
Enquanto ele opera com a precisão que seus colegas admiram em silêncio, alguém com menos anos e menos história está ocupando o espaço que deveria ser dele.
Esse espaço não volta sozinho.
Gilberto Rocha Jr. é locutor, jornalista, dublador e autor de “A Palavra Emana Poder”. Criador do Virada de Marca — serviço de autoridade digital para profissionais de alto padrão. gilbertorochajr.com.br/virada-marca
Nascido em São Paulo-SP em 1970, Gilberto Rocha Jr. é um profissional de comunicação de vasta experiência. Além de exercer diversas atividades no setor, como na área de locução, dublagem e jornalismo, atua na área de mentoria como Life, Leader, Self e Professional Coaching, contribuindo para o desenvolvimento e aprimoramento de Recursos Humanos. Suas palestras são estruturadas nas áreas de relacionamentos e comunicação, motivacionais e de negócios.